
Coescrito por Andre Stangl
Contexto de Como se faz uma tese, de Umberto Eco
1. O livro
Como se faz uma tese foi publicado originalmente em italiano em 1977, com o título Come si fa una tesi di laurea: le materie umanistiche. A edição brasileira da Perspectiva apresenta o livro como uma obra em que Eco aparece não apenas como pesquisador, mas como professor: alguém que transforma sua experiência de investigação em orientação prática para estudantes. A apresentação brasileira diz que o livro é “o relato da experiência de um pesquisador traduzida, praticamente, nas fórmulas didáticas de um professor que conhece o ofício” . A edição inglesa da MIT Press confirma o original italiano de 1977, publicado pela Bompiani/RCS Libri (AtGender).
O livro foi escrito antes de Eco se tornar mundialmente conhecido como romancista, o que aconteceria com O nome da rosa, publicado em 1980. A própria MIT Press observa que, em 1977, três anos antes desse sucesso internacional, Eco publicou um guia “engraçado e despretensioso” para professores e estudantes (The MIT Press Reader).
2. Mini bio de Umberto Eco
Umberto Eco nasceu em Alessandria, na Itália, em 1932, e morreu em Milão em 2016. Foi filósofo, semioticista, crítico literário, medievalista, tradutor, professor de Semiótica na Universidade de Bolonha e uma das figuras centrais dos estudos de comunicação e semiótica no século XX (Universidade de Bolonha). Formou-se em Letras e Filosofia na Universidade de Turim, em 1954, com uma tese sobre a estética de Tomás de Aquino, depois reelaborada em seu primeiro livro, Il problema estetico in San Tommaso (Universidade de Bolonha).
Antes de Como se faz uma tese, Eco já tinha publicado obras fundamentais como Obra aberta, Apocalípticos e integrados, A estrutura ausente e o Tratado geral de semiótica. Em 1975, assumiu a cátedra de Semiótica na Universidade de Bolonha; em 1977, publicou também Dalla periferia all’impero e Come si fa una tesi di laurea (Universidade de Bolonha).
3. A situação da época: universidade de massa, crise e democratização
O ponto central do contexto é a passagem da universidade de elite para a universidade de massa. Eco escreve para estudantes que não vivem mais no modelo aristocrático do pequeno seminário, do tutor disponível e do aluno com tempo integral. No próprio livro, ele afirma que “a universidade italiana é, hoje, uma universidade de massa”, frequentada por estudantes de diferentes classes sociais, muitos deles trabalhadores, pobres, deslocados, sem familiaridade com bibliotecas ou com os códigos tradicionais da pesquisa acadêmica .
Esse diagnóstico tem base histórica. A Itália havia passado por reformas que ampliaram o acesso ao ensino superior. A reforma de 1969 abriu o acesso à universidade a estudantes que tivessem concluído o ensino secundário, independentemente do tipo de formação anterior (CRUI). Ou seja, Eco escreve em um momento posterior à contestação estudantil de 1968, à expansão universitária e às tensões entre democratização do acesso e manutenção de formas antigas de avaliação.
A tese, nesse contexto, aparece como paradoxo: ao mesmo tempo rito burocrático, exigência legal, obstáculo final e possível experiência formadora. A apresentação brasileira capta bem esse ponto ao dizer que a tese vive entre “a pesquisa e a formalidade”, entre “descobrir uma tese e fazer uma tese” .
4. Por que o livro era necessário
Eco não escreve para o estudante ideal. Ele escreve para quem precisa aprender o ofício da pesquisa em condições imperfeitas. Por isso o livro fala de escolha de tema, delimitação, bibliografia, fichamento, uso de biblioteca, citações, notas, redação e relação com o orientador.
A força do livro está justamente nessa mistura de modéstia e ambição. Modéstia porque Eco não promete ensinar “a verdade” da pesquisa científica; ele ensina procedimentos. Ambição porque, para ele, fazer uma tese não é apenas cumprir uma obrigação acadêmica. É aprender a organizar ideias, selecionar fontes, construir um objeto, comunicar um argumento e permitir que outros retomem o caminho percorrido.
Esse ponto é decisivo para nosso artigo: Eco transforma a tese em uma pedagogia do método. A tese não vale apenas pelo tema escolhido, mas pela experiência intelectual que ela obriga a viver.
5. A recepção na época e depois
Sobre a recepção imediata em 1977, seria preciso pesquisar arquivos de jornais e revistas italianos para afirmar com precisão como o livro foi resenhado no momento do lançamento. Mas a repercussão posterior é clara: o livro tornou-se um manual duradouro para estudantes italianos e, depois, internacionais.
A edição inglesa da MIT Press registra que muitos professores italianos ainda recomendam a obra a seus alunos, e que sites universitários de outros países citam trechos do livro como parte da preparação para a escrita de teses (AtGender). A New Yorker informou, em 2015, que o livro já havia passado por 23 edições na Itália e sido traduzido para pelo menos 17 línguas; a primeira edição em inglês só apareceu em 2015 (The New Yorker).
Essa recepção tardia em inglês é interessante: um manual escrito para a universidade italiana dos anos 1970 passou a ser lido, décadas depois, como um guia ainda útil em tempos de internet, excesso de informação e crise das humanidades. A New Yorker observa que Eco escreveu antes da difusão do processador de texto e da internet, mas que o valor duradouro do livro está em sua ideia da tese como experiência de formação, disciplina intelectual e engajamento cuidadoso com o mundo (The New Yorker).
Estrutura geral do livro
A estrutura de Como se faz uma tese, de Umberto Eco, é muito interessante porque o livro não é apenas um manual técnico. Ele é organizado como uma pedagogia do trabalho intelectual: começa explicando o sentido da tese, passa pela escolha do tema, depois pela pesquisa bibliográfica, pela organização do material, pela redação e termina com a forma final do trabalho.
Eco diz explicitamente, na introdução, que o livro pretende tratar de cinco coisas: o que é uma tese; como escolher o tema e organizar o tempo; como fazer a pesquisa bibliográfica; como dispor o material selecionado; e como redigir o trabalho.
1. Apresentação à edição brasileira
A edição brasileira abre com uma apresentação de Lucrécia D’Aléssio Ferrara, que situa o livro no contexto brasileiro. Ela mostra a diferença entre a tese italiana, ligada à licenciatura e à formação profissional, e a tese brasileira, mais associada à pós-graduação, à formação de pesquisadores, mestres e doutores.
Essa apresentação é importante porque interpreta o livro como algo mais que um receituário. Para ela, Eco oscila entre dois planos:
fazer uma tese, como objeto institucional, formal, com regras, prazos, fontes, orientador e defesa;
descobrir uma tese, como experiência de investigação, invenção, leitura e reorganização crítica do conhecimento.
2. Introdução
Na introdução, Eco define o público do livro: estudantes da universidade de massa, muitas vezes sem tempo integral, sem formação anterior sólida em pesquisa e sem familiaridade com bibliotecas. Ele insiste que é possível fazer uma tese digna mesmo em condições difíceis e que a tese pode recuperar o sentido positivo do estudo, não como simples acúmulo de noções, mas como capacidade de identificar problemas, enfrentá-los com método e comunicá-los bem.
A introdução também delimita o alcance do livro: Eco não pretende ensinar “como se faz pesquisa científica” em abstrato, mas como se constrói e apresenta um objeto acadêmico chamado tese.
Capítulo 1 — Que é uma tese e para que serve
Este capítulo define a tese como trabalho escrito, institucionalmente exigido, apresentado a uma banca, mas logo amplia o problema para discutir sua função formativa.
A estrutura interna do capítulo passa por quatro pontos:
1.1. Por que se deve fazer uma tese e o que ela é
Eco distingue a tese de licenciatura, mais ligada à conclusão de curso, da tese de doutorado/PhD, que deveria apresentar uma contribuição original. Ele também diferencia tese de pesquisa e tese de compilação. A tese de compilação não é necessariamente inferior: pode ser séria quando organiza criticamente uma literatura dispersa.
1.2. A quem interessa este livro
Eco deixa claro que o livro não é para quem quer “se livrar” da tese de qualquer maneira, mas para quem deseja fazer um trabalho sério dentro de limites realistas.
1.3. Como uma tese pode servir também após a formatura
Aqui aparece uma das ideias centrais do livro: o tema é menos importante que a experiência de trabalho. Fazer tese é aprender a identificar um tema, recolher documentação, ordenar dados, reexaminar o problema e construir uma exposição compreensível para outros.
1.4. Quatro regras óbvias
Eco apresenta quatro critérios para escolher uma tese: o tema deve interessar ao candidato; as fontes devem ser materialmente acessíveis; as fontes devem ser culturalmente manejáveis; e o método deve estar ao alcance da experiência do estudante.
Capítulo 2 — A escolha do tema
Este é um dos capítulos mais importantes para planejamento de pesquisa. Eco mostra que muitos fracassos começam na escolha de um tema amplo demais.
O capítulo organiza a escolha do tema por pares de oposição:
2.1. Tese monográfica ou tese panorâmica?
Eco defende a tese monográfica. Quanto mais restrito o campo, maior a chance de trabalhar com profundidade. Uma tese sobre “a literatura contemporânea” tende a ser ingovernável; uma tese sobre um corpus específico, um autor, um problema ou uma obra permite mais segurança.
2.2. Tese histórica ou tese teórica?
Eco alerta contra temas abstratos demais, como “a liberdade”, “o ser” ou “a vontade humana”. A solução sugerida é transformar problemas teóricos amplos em objetos controláveis: por exemplo, não “o conceito de liberdade”, mas “o conceito de liberdade em Kant”.
2.3. Temas antigos ou temas contemporâneos?
Eco desmonta a ideia de que o contemporâneo é sempre mais fácil. Muitas vezes o tema contemporâneo é mais difícil porque ainda não há distância crítica nem bibliografia consolidada.
2.4. Quanto tempo é requerido para se fazer uma tese?
Eco sugere que uma tese não deveria levar mais de três anos nem menos de seis meses. Menos de seis meses só seria viável em casos muito delimitados, com fontes disponíveis e tema bem circunscrito.
2.5. É necessário saber línguas estrangeiras?
A resposta depende do objeto. Se a tese trata de um autor estrangeiro, é necessário lê-lo no original. Se a bibliografia essencial está em outra língua, ignorá-la pode comprometer o trabalho.
2.6. Tese “científica” ou tese política?
Eco mostra que essa oposição é falsa. Uma tese política pode ser científica se define bem seu objeto, apresenta dados verificáveis, deixa claros os critérios e permite contestação. O problema não é o tema político, mas a falta de método.
2.7. Como evitar ser explorado pelo orientador
Eco discute a relação entre orientador e orientando, inclusive o risco de o estudante virar mão de obra para a pesquisa do professor. Mas também reconhece que participar de uma pesquisa coletiva pode ser legítimo e produtivo.
Capítulo 3 — A pesquisa do material
Aqui o livro entra na dimensão prática da investigação: fontes, bibliotecas, bibliografia, fichamento bibliográfico e citações.
O capítulo tem dois grandes blocos:
3.1. A acessibilidade das fontes
Eco distingue fontes primárias e fontes secundárias. Se a tese é sobre Adam Smith, as obras de Adam Smith são fontes primárias; os livros sobre Adam Smith são literatura crítica. Se a tese é sobre uma experiência social contemporânea, as fontes podem ser entrevistas, documentos, dados estatísticos, registros audiovisuais etc.
Ele insiste que, antes de aceitar um tema, o estudante deve verificar:
onde estão as fontes;
se elas são acessíveis;
se ele tem condições de lê-las e trabalhá-las.
Também há uma seção importante sobre fontes de primeira e segunda mão, na qual Eco alerta contra o uso acrítico de traduções, antologias, resumos e citações indiretas.
3.2. A pesquisa bibliográfica
Este bloco ensina como usar biblioteca, catálogo por assunto, catálogo por autor, enciclopédias, repertórios bibliográficos, bibliotecários e empréstimos interbibliotecas.
Eco propõe também o uso de fichário bibliográfico, distinguindo-o do fichário de leitura. O primeiro registra tudo que deve ser procurado; o segundo registra o que foi efetivamente lido e resumido.
Há ainda uma longa seção sobre citação bibliográfica, com exemplos de como citar livros, artigos, capítulos, obras coletivas, clássicos, jornais, documentos oficiais, traduções e inéditos.
Capítulo 4 — O plano de trabalho e o fichamento
Este capítulo é o coração metodológico do livro. Eco defende que a tese deve começar com um índice provisório, uma espécie de mapa da viagem. O índice não é definitivo, mas ajuda a definir o âmbito do trabalho e a conversar com o orientador.
A ideia central é: antes de escrever a tese, é preciso construir uma hipótese de organização.
O capítulo trata de:
4.1. O índice como hipótese de trabalho
Eco recomenda escrever desde cedo o título, a introdução e o índice, mesmo que tudo seja refeito depois. O índice inicial serve para ordenar as ideias e revelar lacunas.
4.2. Fichas e anotações
Eco diferencia tipos de fichas: fichas bibliográficas, fichas de leitura, fichas de citação, fichas de ideias e fichas de trabalho.
4.2.2. Fichamento das fontes primárias
Para fontes primárias, Eco recomenda, quando possível, ter os textos à mão, sublinhar, marcar, usar cores, siglas e indicações que depois facilitem a redação.
4.2.4. Humildade científica
Esta é uma das passagens mais conhecidas do livro. Eco conta que uma fonte aparentemente menor pode trazer uma ideia decisiva. Daí a lição: numa pesquisa, não se deve desprezar nenhuma fonte de antemão.
Capítulo 5 — A redação
Depois de escolher o tema, levantar fontes e organizar fichas, Eco passa à escrita.
O capítulo começa com uma pergunta simples: a quem nos dirigimos ao escrever uma tese? A resposta de Eco é que a tese se dirige formalmente à banca, mas deve ser escrita como se pudesse ser lida por outros pesquisadores, estudantes e interessados. Por isso, clareza é essencial.
Os principais temas do capítulo são:
5.1. A quem nos dirigimos
Eco critica o falso prestígio da obscuridade. Textos que não explicam bem seus termos muitas vezes revelam insegurança, não profundidade.
5.2. Como se escreve
O estilo deve ser claro, preciso e comunicável. A tese não deve ser nem conversa informal nem exibição pedante.
5.3. As citações
Eco explica quando citar, como citar, como evitar citações excessivas e como distinguir citação direta, paráfrase e comentário.
5.4. As notas de rodapé
As notas servem para documentação, comentários laterais, referências bibliográficas e esclarecimentos que não devem interromper o fluxo principal.
5.5. Advertências, armadilhas e orgulho intelectual
Eco recomenda que o estudante seja prudente antes de afirmar algo, mas que, depois de pesquisar, assuma sua voz. Quem escolheu um tema delimitado deve se tornar autoridade naquele pequeno território.
Capítulo 6 — A redação definitiva
Este capítulo é quase um manual de apresentação formal. Curiosamente, no PDF ele aparece com numeração romana: Capítulo VI. A Redação Definitiva. Eco explica que a forma gráfica não é mero detalhe: ela também comunica método, ordem e seriedade.
A estrutura do capítulo inclui:
VI.1. Os critérios gráficos
Margens, espaçamento, títulos, subtítulos, parágrafos, organização visual da página. Eco mostra que a disposição gráfica ajuda o leitor a compreender a hierarquia do texto.
VI.2. A bibliografia final
Eco orienta a organização da bibliografia e sugere divisões como: fontes, repertórios bibliográficos, obras sobre o tema, obras sobre o autor e materiais adicionais.
VI.3. Os apêndices
Os apêndices servem para documentos, tabelas, quadros, transcrições, dados estatísticos e materiais que sustentam a tese, mas que tornariam o texto principal pesado.
VI.4. O índice
Eco defende um índice analítico, claro, bem hierarquizado, capaz de refletir a organização real da tese. No fim do livro, ele dá inclusive modelos de índice, mostrando como a estrutura visual deve revelar a estrutura lógica do trabalho.
Capítulo 7 — Conclusões
O capítulo final é breve, mas conceitualmente forte. Eco conclui com duas ideias: fazer uma tese deve ser também uma forma de prazer intelectual e a tese é como porco: nada se desperdiça. Ou seja, mesmo leituras, fichas, desvios e materiais que não entram no texto final podem servir para trabalhos futuros.
A conclusão retoma a tese maior do livro: fazer uma tese não é apenas cumprir uma exigência universitária. É aprender um modo de trabalhar: delimitar problemas, buscar fontes, organizar materiais, escrever com clareza e construir algo que possa ser usado por outros.
Síntese da arquitetura do livro
A estrutura pode ser vista como uma sequência pedagógica:
| Etapa | Função no livro |
|---|---|
| Apresentação brasileira | Contextualiza a tese no Brasil e interpreta o livro |
| Introdução | Define público, objetivo e limites do manual |
| Cap. 1 | Explica o que é uma tese e para que serve |
| Cap. 2 | Ensina a escolher um tema possível |
| Cap. 3 | Ensina a pesquisar fontes e bibliografia |
| Cap. 4 | Ensina a organizar plano, índice e fichas |
| Cap. 5 | Ensina a escrever a tese |
| Cap. 6 | Ensina a preparar a versão final |
| Cap. 7 | Fecha com uma reflexão sobre o valor formativo da tese |
Em resumo, o livro se move de uma pergunta institucional — “o que é uma tese?” — para uma prática intelectual — “como transformar um tema em objeto de pesquisa comunicável?”. Eco começa com a obrigação acadêmica, mas termina defendendo a tese como exercício de método, descoberta e prazer intelectual.
A IA não acabou com o método: relendo Umberto Eco depois do ChatGPT
Se abrirmos hoje Como se faz uma tese, de Umberto Eco, encontramos um modo de pesquisar bem diferente do atual. Ele descreve um trabalho feito em bibliotecas físicas, com catálogos em fichas, pedidos de livros, cópias xerográficas e anotações à mão organizadas em fichários.
Para quem pesquisa hoje — usando PDFs, buscadores acadêmicos e inteligência artificial — esse cenário pode parecer antigo. Mas essa diferença ajuda a perceber algo importante: mudaram as ferramentas, mas não mudou aquilo que faz uma pesquisa funcionar.
E, no entanto, o livro não envelheceu.
Isso acontece porque Eco não estava ensinando apenas a usar uma biblioteca. Ele estava ensinando algo mais fundamental: como transformar informação em pesquisa.
Essa distinção ajuda a entender o momento atual. A digitalização mudou radicalmente o acesso às fontes. A inteligência artificial está mudando a forma como lemos, sintetizamos e escrevemos. Mas nenhuma dessas transformações eliminou o núcleo da atividade de pesquisa. Em alguns aspectos, tornou-o ainda mais exigente.
Da escassez à abundância
No tempo de Eco, um dos principais problemas era o acesso. Era preciso saber onde encontrar um livro, lidar com acervos incompletos, dominar idiomas, circular por bibliotecas, organizar material físico. A pesquisa exigia esforço logístico antes mesmo de se tornar um problema intelectual.
Hoje, vivemos o problema inverso. Há uma abundância quase ilimitada de textos: artigos, preprints, livros digitalizados, repositórios, bases de dados. A isso se somam ferramentas de tradução automática, sistemas de recomendação e, mais recentemente, modelos de linguagem capazes de resumir, comparar e até redigir textos inteiros.
Se antes o desafio era encontrar algo, agora é saber o que merece ser lido, o que é fonte, o que é comentário, o que é confiável e o que é apenas ruído bem articulado.
A digitalização democratizou parte do acesso. A IA acelerou parte da leitura e da escrita. Mas nenhuma das duas aboliu a necessidade de julgamento.
O que permanece: o recorte
Para Eco, a pesquisa começa com uma decisão aparentemente simples e profundamente difícil: delimitar o tema.
Uma tese muito ampla tende a se dissolver em generalidades. Uma tese bem recortada, ao contrário, permite um trabalho real: reunir documentação, confrontar interpretações, construir um argumento.
Esse ponto se torna ainda mais relevante na era da IA. Ferramentas como o ChatGPT são excelentes para expandir o campo: sugerem autores, conectam temas, oferecem panoramas, multiplicam possibilidades. O risco é confundir essa expansão com avanço.
Mas uma pesquisa não avança porque o campo cresce. Ela avança quando o problema se define.
A IA é muito boa para abrir caminhos. O pesquisador continua responsável por fechá-los em uma questão investigável.
O fichário mudou de forma
O fichário de Eco — com suas fichas de leitura, citações, referências cruzadas — pode parecer obsoleto. Mas sua função permanece central: construir uma memória externa da pesquisa.
Hoje, esse papel é desempenhado por ferramentas digitais: gerenciadores de referência, aplicativos de notas, pastas organizadas, bancos de citações, projetos em plataformas de IA. A forma mudou. A necessidade, não.
Pesquisar não é apenas acumular textos. É organizar relações: quem disse o quê, a partir de quais fontes, em diálogo com quais autores, em oposição a quais argumentos.
Nesse sentido, a pesquisa contemporânea exige uma nova habilidade que Eco não nomeava, mas certamente reconheceria: a capacidade de construir contextos progressivos. Não basta fazer perguntas isoladas à IA. É preciso criar ambientes de trabalho onde documentos, hipóteses, leituras e interpretações se articulam.
O novo risco: a compilação sem atrito
Eco já criticava a tese de compilação — aquela que apenas reúne o que outros disseram, sem um trabalho próprio de análise. Esse risco não desapareceu. Ao contrário: foi potencializado.
Com a IA, tornou-se possível produzir rapidamente textos coerentes, bem estruturados e aparentemente informados. Mas essa fluência pode esconder um problema: a ausência de contato efetivo com as fontes.
Se antes a dificuldade material da pesquisa impunha algum grau de confronto com o texto original, hoje é possível simular esse confronto. Surge, assim, uma nova figura: a compilação sem atrito.
Textos que parecem sólidos, mas que não deixam claro de onde vêm suas informações, como foram selecionadas, nem como poderiam ser verificadas.
Nesse cenário, a exigência ecoana de distinguir entre fonte e comentário, de citar corretamente e de organizar a documentação ganha um novo peso. Não se trata apenas de rigor acadêmico. Trata-se de tornar visível o percurso da pesquisa.
O critério continua sendo o mesmo
Eco propõe um critério simples e poderoso para pensar a cientificidade de um trabalho. Um estudo é científico quando:
- define um objeto reconhecível;
- diz algo novo ou reorganiza de modo relevante o que já foi dito;
- é útil para outros;
- permite verificação e contestação.
Esses critérios continuam plenamente válidos.
Um texto produzido com auxílio de IA pode atender a essas exigências — ou não. Um texto escrito sem IA pode falhar nelas — ou não. A questão não é a ferramenta, mas o modo como o trabalho se constitui.
A pergunta decisiva não é “foi usado IA?”. É: o percurso da pesquisa é claro, sustentado, verificável?
Entre o fichário e o prompt
Há uma mudança técnica profunda entre o mundo de Eco e o nosso. O fichário deu lugar a bancos de dados digitais. O catálogo virou buscador. O assistente de biblioteca foi substituído, em parte, por sistemas de inteligência artificial capazes de dialogar com o pesquisador.
Mas o que Eco nos lembra é que a pesquisa não se reduz a essas mediações.
Ela continua sendo uma prática que envolve escolhas, recortes, organização, interpretação e responsabilidade. A responsabilidade de responder pelo que se afirma — e de permitir que outros acompanhem, verifiquem e contestem esse percurso.
A inteligência artificial pode acelerar muitas etapas: localizar textos, resumir argumentos, sugerir conexões, revisar a redação. Pode, inclusive, participar da escrita.
O que ela não faz, por si só, é assumir o gesto metodológico que transforma informação em investigação.
Entre o fichário de Eco e o prompt contemporâneo, há uma continuidade silenciosa. A pesquisa continua dependendo de uma arte que nenhuma tecnologia automatiza completamente: transformar informação em problema, problema em método e método em um percurso que outros possam compreender.
A IA não acabou com o método. Se algo, ela o tornou mais visível — e mais necessário.
Nota técnica sobre a elaboração deste artigo
Este artigo foi elaborado em processo de coescrita com auxílio do ChatGPT, utilizando um projeto dedicado à leitura e discussão do livro Como se faz uma tese, de Umberto Eco. O projeto incluía como contexto principal uma versão digitalizada da obra, usada como referência para recuperar passagens, conceitos e problemas centrais do livro.
O prompt de trabalho orientou a reflexão para a comparação entre o modo de pesquisar descrito por Eco — baseado em bibliotecas, fichários, catálogos, fontes primárias e organização manual da documentação — e as práticas atuais de pesquisa mediadas pela digitalização e pela inteligência artificial.
A IA foi utilizada como apoio para organizar ideias, propor estrutura argumentativa, formular comparações, revisar o texto e tornar a exposição mais didática. A responsabilidade pela seleção dos argumentos, pelo enquadramento conceitual e pela versão final do artigo permanece com o autor.
A proposta do texto não foi substituir a leitura direta de Eco, mas usá-la como ponto de partida para pensar continuidades e mudanças no trabalho acadêmico contemporâneo, especialmente no contexto da pesquisa com apoio de ferramentas digitais e modelos de linguagem.
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