A IA transforma o gesto da escrita.

Swirling ribbon of glowing gold and blue ancient calligraphy on a black background.

Aqui está o resumo detalhado do primeiro encontro da 5ª turma do Curso de Coescrita com IA, realizado em 24/02/2026, com base na gravação/transcrição da aula .


🗓 1º Encontro

Tema central: O que está em jogo quando escrevemos com IA?


1️⃣ Abertura: trajetória do curso e da coescrita

O encontro começa com André apresentando seu percurso:

  • Formação em Filosofia
  • Mestrado e doutorado em Comunicação / Cultura Digital
  • Experiência com internet desde o Orkut
  • Colunas sobre cultura digital e tecnologia
  • Experimentos públicos de coescrita marcando explicitamente os trechos produzidos com IA

Um ponto central da fala inicial:

A coescrita começou como conflito — depois tornou-se simbiose.

André relata que, em determinado momento, já não conseguia distinguir claramente o que era “dele” e o que era “da IA”, pois o processo envolvia múltiplas revisões, idas e vindas.

Daí nasce o curso:
👉 Compartilhar essa experiência.
👉 Testar coletivamente os limites da coescrita.
👉 Refletir criticamente, não apenas tecnicamente.


2️⃣ Perfil da turma: tensões e expectativas

A diversidade da turma marca fortemente o encontro.

Perfis presentes:

  • Escritora e professora de escrita criativa
  • Ex-profissional de TI escrevendo romance autoficcional
  • Médica e professora universitária
  • Poeta com livros publicados
  • Profissional da área jurídica
  • Pedagogo pesquisador de tecnologia
  • Escritora que criou uma personagem IA dentro do próprio romance
  • Participantes iniciantes buscando o “beabá”

Tensões principais que emergem:

  1. IA como ameaça à autoria literária
  2. IA como ferramenta de organização narrativa
  3. IA como expansão criativa
  4. Preocupação ética (plágio, autenticidade, uso oculto)
  5. Medo de perda de capacidade cognitiva
  6. Curiosidade pedagógica
  7. Questão da privacidade e uso de dados

Um ponto muito importante aparece:

Muitos que criticam o uso de IA ainda não sabem usá-la profundamente.


3️⃣ A pergunta provocadora

André introduz a questão que estrutura o eixo teórico do curso:

Qual é a forma mais natural de escrever?

Argila?
Caneta?
Máquina de escrever?
Computador?
Celular?
IA?

A resposta desarma a oposição natural/artificial:

👉 A escrita nunca foi natural.
👉 Ela sempre foi técnica.

Esse deslocamento é fundamental:
O problema não é a artificialidade da IA.
A própria escrita já é uma tecnologia.


4️⃣ A base teórica: Vilém Flusser

O eixo conceitual do encontro é a leitura de Flusser, especialmente:

  • A Escrita – Futuro para a Escrita
  • O Universo das Imagens Técnicas

Ideias centrais mobilizadas:

🖋 Escrita como gesto

Escrever é um gesto técnico:

  • Curvar-se sobre superfície
  • Traçar signos
  • Organizar informação

Com a máquina → o gesto muda
Com o teclado → o gesto muda
Com o touch → o gesto muda
Com a voz → o gesto muda novamente

A IA representa uma nova transformação do gesto.


🌀 Transformação civilizacional

Flusser sugere que:

  • A escrita linear estruturou a história
  • A cultura escrita organizou o tempo como progresso
  • O documento tornou-se base da memória

Agora, com imagens técnicas e sistemas digitais, estaríamos caminhando para uma:

Pós-história

Não significa fim da história, mas mudança na forma de registrar e organizar o mundo.


5️⃣ IA não nasceu agora

André contextualiza historicamente:

  • Cibernética (Norbert Wiener)
  • Redes neurais
  • Décadas de pesquisa
  • “Inverno da IA”
  • Retomada com transformers

O ChatGPT não surge do nada — é resultado de décadas de pesquisa.


6️⃣ Literatura como lente de compreensão

Antes da teoria, André mergulhou na ficção científica:

Isaac Asimov

Asimov antecipou dilemas éticos e simbólicos da IA.

A literatura ajudou a elaborar o espanto inicial.


7️⃣ Oralidade, escrita e memória

Surge um debate pedagógico forte:

  • A leitura está ameaçada?
  • A escrita perderá centralidade?
  • As novas gerações perderão repertório?

André responde com dois movimentos:

  1. Recupera Platão (Fedro) e o mito do fármaco:
    A escrita também foi vista como ameaça à memória.
  2. Introduz a discussão decolonial:
    A escrita não é a única forma legítima de organizar conhecimento.

A IA pode estar reativando dimensões da oralidade.


8️⃣ Parte prática: o “beabá”

Para iniciantes:

  • Usar o ChatGPT oficial da OpenAI
  • Criar login para registrar histórico
  • Conversar naturalmente
  • Perguntar à própria IA como utilizá-la

Conselho central:

Pense na IA como um estagiário inteligente.


9️⃣ Personalização e estilo

Tema importante discutido:

  • É possível reproduzir estilo?
  • IA pode imitar um autor?

André explica a lógica da estilometria:

  • Padrões recorrentes são estatisticamente identificáveis.
  • Estilo pode ser emulado.
  • Mas curadoria humana continua decisiva.

🔟 Questões éticas e privacidade

Discussões abordadas:

  • Uso de dados
  • Configuração de memória
  • Versão paga vs gratuita
  • Risco de publicidade personalizada
  • Alucinação da IA

Conclusão provisória:

O risco não está na IA.
Está no uso irrefletido da IA.


🌱 Síntese conceitual do encontro

O primeiro encontro estabeleceu quatro pilares:

1. A escrita sempre foi técnica.

2. A IA transforma o gesto da escrita.

3. Estamos em uma transição civilizacional.

4. O desafio é reflexivo, não apenas instrumental.


🧠 Tarefa para a turma

  • Criar conta no ChatGPT
  • Conversar com a IA
  • Perguntar como utilizá-la
  • Experimentar sem medo
  • Observar o próprio gesto ao escrever

Respostas

  1. Avatar de Onofre

    Bom dia, André
    Muito bom seu resumo.
    Parabéns.
    voce já tem o resumo da próxima aula?
    att. Onofre

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    1. Avatar de Andre Stangl

      Bom dia Onofre,
      obrigado.
      Em geral faço os resumos a partir das transcrições da aula gravada. Mas você pode encontrar aqui no site, resumos da segunda aula das edições anteriores do curso. Ainda que ocorram algumas variações e atualizações. Att

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