O ecossistema cibernético

A wildflower meadow with glowing circuit paths leading to a sun shaped like a microchip.

Resumo detalhado do quarto encontro

Curso de Coescrita com Inteligência Artificial – Turma 5
Data: 06/03/2026

Introdução do encontro

O último encontro do curso teve um caráter mais reflexivo e experimental, combinando quatro momentos principais:

  1. uma conversa aberta sobre as experiências dos participantes com inteligência artificial ao longo do curso;
  2. debate sobre o percurso conceitual, retomando algumas das transformações culturais associadas às tecnologias digitais e à inteligência artificial.
  3. a exibição e discussão de um curta-metragem experimental do cineasta chinês Jia Zhangke;
  4. uma atividade prática de conversa coletiva mediada por IA, realizada dentro do próprio ambiente do ChatGPT.

Andre inicia a aula explicando a dinâmica do encontro. A ideia era primeiro ouvir os colegas sobre as experiências que tiveram durante o curso, depois apresentar um vídeo recente que dialogava diretamente com o tema da autoria na era da inteligência artificial, e finalmente realizar um experimento prático envolvendo interação coletiva com um sistema de IA.


1. Debate inicial: autoria, ética e crise da escrita

A primeira parte do encontro foi marcada por uma conversa aberta entre os participantes, que compartilharam dúvidas, inquietações e experiências práticas com o uso da IA.

Uma das participantes relatou um dilema vivido recentemente em seu trabalho. Ela escreve profissionalmente e havia utilizado o ChatGPT para reescrever algumas frases de um texto que estava produzindo. O sistema sugeriu reformulações que ela considerou boas, mas, ao utilizar essas ideias, surgiu uma dúvida ética:

utilizar a IA dessa maneira seria uma forma de fraude?

A pergunta revelou uma tensão comum entre profissionais da escrita no momento atual: a sensação de que o uso da IA pode colocar em questão a própria identidade do autor.

Andre responde a essa inquietação situando o problema dentro de um contexto mais amplo. Segundo ele, a questão central não é necessariamente o uso da IA em si, mas a relação de transparência com o leitor, o contratante ou o contexto em que o texto será publicado.

Ele menciona também um episódio recente envolvendo uma colunista da Folha de S.Paulo, no qual o uso de IA na produção de textos gerou forte reação pública quando foi descoberto que a autora utilizava o recurso sem informar explicitamente aos leitores. O caso ilustra como a discussão sobre IA ainda está em processo de formação e envolve expectativas culturais sobre autoria e autenticidade.

Outro participante reforça que muitos profissionais estão vivendo algo semelhante: uma espécie de crise de identidade da escrita, na qual as fronteiras entre autoria humana e colaboração com sistemas técnicos ainda estão sendo negociadas.


2. IA, empatia e comunicação médica

Durante a conversa, Andre menciona também um exemplo discutido na imprensa internacional sobre o impacto da inteligência artificial na comunicação médica.

Ele cita um ensaio publicado em 5 de outubro de 2024 no The New York Times, escrito pelo médico de emergência Jonathan Reisman, intitulado “Eu sou médico. O comportamento humano do ChatGPT é melhor que o meu.”

No texto, o autor relata que, durante muito tempo, acreditou que a inteligência artificial poderia eventualmente superar os médicos nos aspectos técnicos da medicina — como diagnóstico ou análise de exames —, mas que o lado humano da profissão, especialmente a empatia e a comunicação com pacientes, permaneceria exclusivamente humano.

No entanto, com o surgimento de modelos de linguagem como o ChatGPT, ele passou a reconsiderar essa ideia.

O médico menciona estudos em que respostas do ChatGPT a perguntas de pacientes foram avaliadas como mais empáticas e de maior qualidade do que respostas escritas por médicos. A razão para isso, segundo ele, está no fato de que a comunicação empática na medicina muitas vezes segue estruturas relativamente padronizadas.

Durante sua formação, por exemplo, ele participou de treinamentos específicos sobre como comunicar más notícias a pacientes, como o diagnóstico de câncer. Nesse tipo de situação, os estudantes aprendem uma espécie de roteiro: evitar termos excessivamente técnicos, dizer claramente a palavra “câncer”, fazer pausas para permitir que o paciente processe a informação e formular frases que expressem cuidado, como “eu gostaria de ter notícias melhores”.

Inicialmente, o autor estranhou a ideia de que empatia pudesse ser ensinada como um conjunto de passos quase coreografados. No entanto, com a experiência prática, percebeu que esses roteiros ajudam a tornar situações extremamente difíceis mais humanas e mais compreensíveis para os pacientes.

Esse exemplo é usado na aula para mostrar que muitos aspectos da comunicação humana envolvem padrões linguísticos aprendidos socialmente. Modelos de linguagem conseguem reproduzir esses padrões com grande eficiência, o que explica por que, em certos contextos, suas respostas podem parecer particularmente cuidadosas ou empáticas.

Ao mesmo tempo, o exemplo reforça um ponto importante discutido no curso: embora a IA possa reproduzir formas linguísticas de empatia, isso não significa que ela possua sentimentos ou experiência subjetiva. O que ela produz são estruturas de linguagem que simulam padrões humanos de comunicação, aprendidos a partir de grandes volumes de texto.

Assim, a inteligência artificial pode funcionar como apoio à comunicação, inclusive em contextos delicados, mas continua sendo um sistema técnico que opera a partir de padrões estatísticos da linguagem.


3. Desigualdade de acesso às tecnologias

Outro tema importante levantado pelos participantes foi a questão da desigualdade no acesso às tecnologias de IA.

Um dos alunos observa que, ao longo do curso, ficou claro que as versões pagas dos sistemas de IA oferecem recursos significativamente mais avançados do que as versões gratuitas. Isso levanta uma preocupação:

se o acesso às ferramentas mais sofisticadas depender de pagamento, a inteligência artificial poderá ampliar desigualdades sociais e cognitivas já existentes.

A discussão destaca que a revolução da IA não é apenas tecnológica, mas também econômica e social, pois o acesso às ferramentas influencia diretamente as possibilidades de uso e experimentação.

Dados complementares

O Brasil alcançou uma quase universalização técnica do acesso digital, mas não necessariamente das competências de leitura e interpretação necessárias para navegar nesse ambiente. Em 2024, 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram a internet, e 98,8% desses usuários acessam por celular. Ao mesmo tempo, o analfabetismo ainda atinge 5,3% da população de 15 anos ou mais, e o analfabetismo funcional chega a cerca de 29% entre 15 e 64 anos. Ou seja: a conexão se espalhou mais rápido que a capacidade plena de leitura e compreensão.

Esse descompasso fica ainda mais visível quando observamos a velocidade de difusão das novas tecnologias digitais. O ChatGPT atingiu cerca de 1 milhão de usuários em apenas 5 dias após o lançamento e chegou a 100 milhões de usuários em cerca de dois meses, tornando-se um dos serviços digitais com crescimento mais rápido da história. Para comparação, o Instagram levou cerca de dois anos e meio para alcançar 100 milhões de usuários, e o Facebook levou mais de quatro anos.

Isso mostra que vivemos uma aceleração radical na circulação de tecnologias cognitivas. Em poucas semanas, ferramentas capazes de produzir textos, códigos e imagens chegam a dezenas ou centenas de milhões de pessoas. No entanto, as habilidades necessárias para interpretar criticamente informação, avaliar respostas ou usar essas ferramentas de forma reflexiva dependem de processos educacionais muito mais lentos.

Assim, convivem duas temporalidades distintas: a velocidade exponencial da difusão tecnológica e a lentidão estrutural da formação educacional. O resultado é uma sociedade em que quase todos estão conectados, muitos têm acesso a ferramentas de inteligência artificial, mas uma parcela significativa ainda enfrenta dificuldades básicas de leitura e interpretação — justamente as competências que mais influenciam o uso crítico dessas tecnologias.

Aqui estão as principais fontes confiáveis para cada dado citado:


Acesso à internet no Brasil

IBGE – PNAD Contínua TIC

  • 89,1% das pessoas de 10 anos ou mais usaram internet em 2024.
  • 98,8% dos usuários acessaram via telefone celular.

Fonte:
IBGE. PNAD Contínua: Tecnologia da Informação e Comunicação 2024.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44033-pela-primeira-vez-mais-da-metade-da-populacao-acessa-a-internet-pela-tv


Analfabetismo no Brasil

IBGE – PNAD Contínua Educação

  • 5,3% da população de 15 anos ou mais é analfabeta.
  • Cerca de 9,1 milhões de pessoas.

Fonte:
IBGE. Indicadores de Educação 2024.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta


Analfabetismo funcional

INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional

  • 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional.

Fonte:
INAF 2024 – Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa.
https://alfabetismofuncional.org.br/relatorios

Relatório:
https://alfabetismofuncional.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Relatorio_Inaf_2024.pdf


Crescimento do ChatGPT

  • 1 milhão de usuários em 5 dias.
  • 100 milhões de usuários em cerca de 2 meses.

Fontes:

Reuters
https://www.reuters.com/technology/chatgpt-sets-record-fastest-growing-user-base-analyst-note-2023-02-01/

UBS Evidence Lab report (2023)

Also reported by:
Nature
https://www.nature.com/articles/d41586-023-00288-7


Comparação com outras plataformas

Estudos sobre crescimento de plataformas digitais:

Statista
https://www.statista.com/chart/27784/time-to-reach-100-million-users/

Exemplos:

  • ChatGPT — ~2 meses
  • TikTok — ~9 meses
  • Instagram — ~2,5 anos
  • Facebook — ~4,5 anos

O Overmundo e as transformações da cultura digital

Na aula comentamos um pouco sobre o Overmundo, um dos projetos mais interessantes da cultura digital brasileira dos anos 2000. Lançado em 2006, o site foi criado como uma plataforma colaborativa para divulgar a diversidade cultural do Brasil. Qualquer pessoa podia publicar textos, relatos, músicas, vídeos ou registros de eventos culturais de sua cidade. Outros usuários comentavam, editavam e votavam nos conteúdos. A ideia era criar um grande mapa coletivo da cultura brasileira, especialmente da produção que não aparecia na grande mídia.

Naquele momento da internet, o modelo fazia muito sentido. A participação online ainda era muito marcada pela escrita: blogs, fóruns e portais colaborativos. O Overmundo funcionava como uma espécie de grande blog coletivo nacional.

Na época, participei do projeto como overmano na Bahia, ajudando a acompanhar e estimular as contribuições da comunidade local. Foi uma experiência interessante de cultura digital colaborativa, em que pessoas de diferentes regiões do país compartilhavam suas cenas culturais, festas, artistas e iniciativas.

Com o tempo, porém, o ecossistema da internet mudou bastante. A circulação cultural passou a acontecer principalmente por vídeos, redes sociais e podcasts. Formatos mais rápidos e audiovisuais ganharam espaço, enquanto a produção de textos mais longos foi perdendo centralidade. Talvez por isso projetos baseados na escrita colaborativa, como o Overmundo, tenham perdido espaço diante das novas plataformas.

Mesmo assim, o Overmundo permanece como um marco importante da cultura digital brasileira, porque antecipou muitas ideias que hoje são comuns na internet: participação coletiva, circulação descentralizada de informação e valorização das culturas locais.

Mais informações: https://pt.wikipedia.org/wiki/Overmundo 

IA, oralidade e transformações culturais da escrita

Outro ponto discutido no encontro foi a possibilidade de que a inteligência artificial esteja provocando uma mudança mais profunda na história das formas de comunicação: um retorno parcial da oralidade mediada por tecnologia.

Durante vários séculos, a escrita ocupou uma posição central na organização do conhecimento, especialmente nas sociedades ocidentais. A escrita permitiu registrar informações, construir arquivos, desenvolver sistemas jurídicos e organizar instituições complexas. Ao mesmo tempo, ela também funcionou como uma barreira cultural e social, porque exige alfabetização, treinamento e domínio de códigos formais relativamente rígidos.

Historicamente, a cultura escrita esteve fortemente associada às instituições do mundo europeu moderno: universidades, burocracias estatais, ciência moderna e sistemas administrativos. Em muitos contextos, participar plenamente da vida intelectual e institucional exigia dominar formas específicas de escrita — relatórios, artigos acadêmicos, textos técnicos — que nem sempre eram acessíveis a todos.

A inteligência artificial pode alterar parcialmente esse cenário.

Modelos de linguagem permitem interagir com sistemas complexos de informação por meio de linguagem natural, aproximando a comunicação digital de formas mais próximas da conversa. Em vez de escrever textos longos ou dominar formatos rígidos, muitas tarefas podem ser realizadas por meio de perguntas, diálogos ou comandos relativamente simples.

Além disso, novas interfaces baseadas em voz — como sistemas de reconhecimento e síntese de fala — estão aproximando ainda mais essas tecnologias de formas orais de interação. Nesse sentido, a IA pode ser vista como parte de um movimento que reaproxima certas dimensões da comunicação digital da oralidade.

Esse fenômeno tem implicações culturais mais amplas.

Durante muito tempo, a centralidade da escrita reforçou padrões culturais associados ao eurocentrismo, já que as formas dominantes de produção e validação do conhecimento foram historicamente definidas a partir de instituições e tradições intelectuais europeias. A necessidade de dominar determinados estilos de escrita acadêmica ou burocrática funcionava como um filtro de participação.

Quando a interação com sistemas de informação passa a ocorrer de forma mais conversacional, parte dessas barreiras pode se reduzir. Pessoas com diferentes níveis de formação escrita podem acessar informações, produzir textos ou participar de processos de criação intelectual por meio de interfaces mais próximas da fala e do diálogo.

Isso não significa o desaparecimento da escrita — que continua sendo fundamental para a organização do conhecimento —, mas pode indicar uma transformação no equilíbrio entre diferentes formas de comunicação.

Nesse contexto, a inteligência artificial pode contribuir para um ambiente cultural mais plural, no qual diferentes modos de expressão — escritos, orais e híbridos — coexistem e participam da produção de conhecimento.

Essa transformação também dialoga com discussões contemporâneas sobre tecnodiversidade, nas quais diferentes culturas e tradições podem desenvolver modos próprios de interação com as tecnologias digitais, em vez de reproduzir apenas modelos estabelecidos em contextos históricos específicos.

Infraestrutura tecnológica, poder e o desenvolvimento da IA

No debate final do curso também aparece uma questão mais ampla sobre quem desenvolve as tecnologias que estamos utilizando.

Andre observa que muitas das tecnologias digitais que estruturam a vida contemporânea tiveram origem em programas militares ou estatais de pesquisa. A internet, por exemplo, surgiu a partir de um projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos nos anos 1960. O GPS foi inicialmente desenvolvido para fins militares. Sensores digitais usados em câmeras e satélites também nasceram em contextos ligados à defesa e à vigilância.

Esse padrão histórico revela um movimento recorrente: tecnologias criadas em ambientes de pesquisa estratégica acabam, com o tempo, sendo incorporadas ao cotidiano civil.

Hoje, no entanto, parte desse processo ocorre de maneira diferente. Muitas das infraestruturas digitais utilizadas diariamente — sistemas de nuvem, plataformas de software e ferramentas de inteligência artificial — são desenvolvidas por grandes empresas privadas que também mantêm contratos com governos e setores militares.

Esse cenário levanta novas questões. Quando usuários criticam ou tentam boicotar determinadas plataformas, muitas vezes o foco recai sobre aplicativos visíveis, como redes sociais ou assistentes de IA. No entanto, grande parte da infraestrutura digital — servidores, sistemas de armazenamento e redes de processamento — permanece invisível para o usuário comum.

Sociólogos da tecnologia descrevem esse fenômeno como invisibilidade da infraestrutura: quando uma tecnologia se torna base de funcionamento de um sistema, ela deixa de ser percebida como uma escolha individual e passa a constituir simplesmente o ambiente no qual outras atividades ocorrem.

Nesse contexto, a inteligência artificial pode estar entrando em um processo semelhante. Embora hoje ainda apareça principalmente como ferramenta ou aplicativo, ela está sendo progressivamente integrada a mecanismos de busca, softwares de trabalho, sistemas educacionais e plataformas digitais.

Outra possibilidade discutida é que, se empresas privadas começarem a impor limites ao uso militar de seus sistemas, governos podem optar por desenvolver suas próprias inteligências artificiais, dentro de programas estatais ou militares de pesquisa. Historicamente, isso já ocorreu com várias tecnologias estratégicas.

Essa discussão conecta-se também com temas abordados ao longo do curso, como tecnodiversidade e autonomia tecnológica. Se diferentes países ou instituições passam a desenvolver seus próprios sistemas de inteligência artificial, surgem perguntas importantes sobre valores, interesses e modelos culturais incorporados nessas tecnologias.

Assim, a questão não é apenas quem utiliza a inteligência artificial, mas também quem a desenvolve, em que contextos institucionais e com quais objetivos.

Modelos globais de desenvolvimento da inteligência artificial

Outra discussão relacionada ao tema da infraestrutura tecnológica envolve as diferenças entre os ecossistemas de IA em diferentes regiões do mundo, especialmente entre Estados Unidos e China.

Andre menciona que o acesso às plataformas de inteligência artificial não é uniforme globalmente. Na China, por exemplo, muitas ferramentas ocidentais — como o ChatGPT ou sistemas de empresas norte-americanas — são geralmente bloqueadas ou de difícil acesso. Como resultado, a maior parte dos usuários utiliza modelos desenvolvidos por empresas chinesas.

Entre os sistemas mais conhecidos estão:

  • ERNIE Bot, da Baidu
  • Qwen, da Alibaba
  • DeepSeek
  • além de projetos de empresas como Tencent e ByteDance.

Pesquisadores e alguns usuários especializados conseguem acessar sistemas estrangeiros utilizando VPN, mas isso não representa o padrão da maioria dos usuários.

Outro aspecto relevante é o modelo econômico dessas plataformas.

Em muitos casos, o uso básico das IAs na China tende a ser gratuito para usuários comuns, enquanto empresas pagam principalmente pelo uso de APIs ou pela integração dos modelos em serviços comerciais.

Um exemplo que ganhou destaque internacional é o sistema DeepSeek, que se tornou conhecido por oferecer modelos de linguagem com custos muito baixos, especialmente para desenvolvedores e empresas.

Esse modelo se sustenta por diferentes estratégias:

  • integração da IA em grandes plataformas digitais (busca, comércio eletrônico, redes sociais);
  • venda de serviços de IA para empresas;
  • infraestrutura computacional otimizada;
  • e, em alguns casos, apoio indireto do Estado como parte de estratégias nacionais de desenvolvimento tecnológico.

Essa diferença ajuda a entender um contraste interessante entre os dois ecossistemas tecnológicos.

Nos Estados Unidos e em parte do Ocidente, muitos sistemas de IA dependem de modelos de assinatura e monetização direta. Já na China, a tendência tem sido integrar os sistemas de inteligência artificial diretamente em aplicativos e plataformas digitais amplamente utilizados, buscando adoção massiva da tecnologia.

Para a discussão do curso, essa comparação ajuda a reforçar uma ideia importante: a inteligência artificial não é apenas um fenômeno técnico, mas também econômico, político e cultural. Diferentes sociedades podem desenvolver modelos distintos de tecnologia, com implicações variadas para acesso, custo e formas de uso.

Esse cenário também dialoga com a discussão sobre tecnodiversidade, apresentada em encontros anteriores, sugerindo que o desenvolvimento da inteligência artificial pode seguir caminhos múltiplos, dependendo das condições culturais, econômicas e institucionais de cada região do mundo.


4. Exibição do curta sobre IA e autoria

Após a conversa inicial, Andre apresenta um vídeo recente envolvendo o cineasta chinês Jia Zhangke.

O curta-metragem funciona como um experimento artístico no qual o diretor dialoga com uma versão digital de si mesmo criada por inteligência artificial.

A obra explora vários temas centrais discutidos no curso:

  • autoria na era da inteligência artificial
  • a ideia de um duplo digital
  • a relação entre imperfeição humana e perfeição algorítmica
  • os limites entre criação humana e geração automática.

No diálogo apresentado no filme, a inteligência artificial tenta melhorar o roteiro e torná-lo mais agradável ao público, enquanto o diretor defende a importância da expressão pessoal do artista, mesmo quando essa expressão inclui imperfeições.

Essa tensão entre eficiência algorítmica e subjetividade humana torna o curta um exemplo interessante para refletir sobre a criação artística na era da IA.


5. Discussão do curta

Após a exibição, o grupo discute as questões levantadas pelo filme.

Entre os temas debatidos estão:

  • quem pode ser considerado autor quando uma obra envolve colaboração com IA;
  • se a inteligência artificial tende a produzir conteúdos mais “perfeitos” ou mais padronizados;
  • o papel da imperfeição humana na criação artística.

A discussão reforça uma ideia recorrente ao longo do curso: a inteligência artificial não precisa ser entendida como substituta da criatividade humana, mas como participante de um processo de coescrita ou cocriarão.

Arte e Anti-ambiente em Marshall McLuhan

Marshall McLuhan afirma que cada tecnologia ou meio de comunicação cria um ambiente que molda nossa forma de perceber o mundo. Esses ambientes são tão presentes em nossa vida cotidiana que normalmente se tornam invisíveis para nós. Por exemplo, a escrita, a televisão ou a internet modificam nossa maneira de pensar, comunicar e organizar a experiência, mas raramente percebemos esses efeitos enquanto estamos imersos neles.

Nesse contexto, McLuhan diz que a arte funciona como um anti-ambiente. Isso significa que a arte cria um contraste que torna visível o ambiente em que vivemos. Ao romper hábitos de percepção, o artista revela aspectos da cultura e das tecnologias que normalmente passam despercebidos. A arte, portanto, não é apenas expressão estética ou entretenimento, mas também um instrumento de consciência e reflexão.

Quando uma obra artística provoca estranhamento, experimenta novas formas ou reorganiza a percepção, ela ajuda o público a perceber o impacto dos meios e das mudanças culturais. Por isso, McLuhan considera o artista uma espécie de “radar da sociedade”, capaz de perceber transformações culturais antes que elas se tornem evidentes para todos.

Assim, a arte como anti-ambiente tem uma função importante: tornar visível o invisível, revelando os efeitos dos meios e ampliando nossa consciência sobre o mundo em que vivemos.


6. Experimento final: conversa em grupo com IA

Na última parte do encontro, Andre propõe um experimento prático.

Até aquele momento, a maioria das interações com sistemas de IA havia ocorrido de forma individual, com cada usuário conversando separadamente com o sistema.

A atividade consistiu em testar uma dinâmica diferente: uma conversa coletiva dentro do ambiente do ChatGPT, envolvendo vários participantes ao mesmo tempo.

O objetivo era observar:

  • como a IA interpreta perguntas feitas por diferentes pessoas;
  • como ela organiza o contexto de uma discussão coletiva;
  • e como responde a múltiplas intervenções dentro de uma mesma conversa.

A experiência permitiu perceber que os modelos de linguagem podem atuar não apenas como assistentes individuais de escrita, mas também como mediadores de conversas coletivas, participando de processos colaborativos de pensamento e discussão.


7. Encerramento do encontro e do curso

Para concluir o último encontro, Andre retoma uma reflexão histórica sobre as expectativas culturais que sempre acompanharam o desenvolvimento das tecnologias digitais.

Ele menciona um poema escrito em 1967 pelo poeta americano Richard Brautigan, intitulado All Watched Over by Machines of Loving Grace.

O texto tornou-se um símbolo da imaginação tecnológica da contracultura da Califórnia nos anos 1960. Naquele momento, os primeiros computadores começavam a aparecer em universidades e laboratórios, e alguns pensadores imaginavam que essas novas tecnologias poderiam contribuir para uma sociedade mais equilibrada, em que tecnologia, natureza e humanidade coexistissem de forma harmônica.

O poema de Brautigan descreve justamente essa visão: um futuro em que computadores fariam parte de um ecossistema cibernético, convivendo com animais, florestas e seres humanos. Em vez de dominar a natureza, as máquinas ajudariam a organizar o mundo de maneira quase invisível, permitindo que as pessoas voltassem a viver de forma mais livre.

Andre observa que essa imagem poética mistura três correntes culturais muito presentes naquela época:

  • a contracultura hippie, que defendia um retorno à natureza;
  • o entusiasmo científico com a cibernética e os primeiros computadores;
  • e a esperança de que novas tecnologias digitais pudessem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada.

Décadas depois, essa metáfora voltou a circular no debate contemporâneo sobre inteligência artificial. O pesquisador Dario Amodei, por exemplo, retomou a expressão de Brautigan em um ensaio recente sobre o futuro da IA, intitulado “Machines of Loving Grace”. No texto, ele sugere que sistemas avançados de inteligência artificial poderiam contribuir para acelerar descobertas científicas, melhorar tratamentos médicos e ampliar as capacidades humanas.

Andre observa que essa coincidência histórica é interessante: um pequeno poema escrito na década de 1960 acabou se transformando, décadas depois, em uma espécie de antecipação cultural das discussões atuais sobre inteligência artificial.

Ao encerrar o curso, Andre sugere que a relação entre humanos e máquinas sempre foi acompanhada por imaginação, esperança e também inquietação. A inteligência artificial não surge apenas como uma tecnologia técnica, mas como parte de uma longa história cultural de expectativas sobre o papel das máquinas na vida humana.

Nesse sentido, a prática da coescrita com IA, explorada ao longo do curso, pode ser vista como um exemplo concreto dessa nova etapa: uma forma de interação em que humanos e sistemas técnicos passam a colaborar na produção de linguagem, ideias e conhecimento.


Todos vigiados por máquinas de graça amorosa

(Richard Brautigan, 1967 – tradução livre)

Gosto de pensar (e quanto antes melhor!)
num prado cibernético
onde mamíferos e computadores
vivam juntos
em harmonia mutuamente programada
como água pura
tocando um céu claro.

Gosto de pensar
(agora mesmo, por favor!)
numa floresta cibernética
repleta de pinheiros e eletrônica
onde os cervos caminhem tranquilamente
passando pelos computadores
como se fossem flores.

Gosto de pensar
(e quanto antes melhor!)
numa ecologia cibernética
onde nós estejamos livres do nosso trabalho
e de volta à natureza,
retornados aos nossos irmãos e irmãs mamíferos,

e todos vigiados
por máquinas
de graça amorosa.

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