Filosofia, ética e originalidade


O terceiro encontro, dia 18, aprofundou as discussões sobre o impacto da Inteligência Artificial na criação literária, estendendo-se para reflexões sobre o mercado de trabalho, filosofia da mente, ética, originalidade artística e culminando em uma demonstração prática de ferramentas de coescrita e geração de imagens.


1. Contexto inicial e o conto Mila

  • Materiais de apoio: Andre reforçou o uso do site coescrita.com.br e do grupo de WhatsApp como canais de distribuição de textos e referências.
  • Origem do conto: Mila foi gerado por um modelo experimental da OpenAI (divulgado por Sam Altman). O modelo ainda não está disponível ao público e foi testado a partir de um prompt extremamente simples.
  • Reações dos participantes:
    • Alguns perceberam forte dimensão metaficcional, onde a IA fala de si mesma.
    • Outros desejaram histórias “não metaficcionais”, abordando o luto sem trazer a IA como tema central.
    • Debateu-se a hipótese de intervenção humana no texto, dada a sofisticação narrativa.
  • Reflexão central: A IA mostrou-se capaz de criar narrativas coerentes e literárias a partir de instruções mínimas – algo que modelos disponíveis no mercado ainda não alcançam sem prompts longos e detalhados.

2. IA, trabalho e sociedade

  • Substituição de empregos: receio generalizado de que a IA impacte profissões como tradução, revisão, design e produção de guias de viagem (já bastante afetados).
  • Literatura: ainda há resistência social a livros totalmente escritos por IA, embora a autopublicação já esteja se transformando.
  • Renda Universal: proposta de Sam Altman de criar uma renda básica financiada pelos lucros da IA, condicionada à prova de humanidade via escaneamento de íris (projeto Worldcoin).
  • Adaptação social: Maria Amaral comparou a introdução da IA a outras inovações (calculadoras, computadores), defendendo adaptação e aprendizado contínuo. Ela alertou para a falta de preparo de educação e política para enfrentar a mudança.

3. Filosofia e ética da IA

  • Imortalidade e materialidade: Barroso defendeu que a IA poderia ser “eterna”, mas Andre lembrou sua dependência de data centers, energia e infraestrutura física.
  • Avatares da memória: o conto Mila conecta-se a um mercado em crescimento que cria avatares digitais de falecidos (ex.: Laurie Anderson recriando Lou Reed).
  • Dualismo cartesiano: se a mente é apenas matéria, copiar a consciência seria apenas um desafio técnico; se há algo imaterial (alma), a reprodução não é possível.
  • Informação não material: Norbert Wiener (cibernética) já defendia que informação não é redutível à matéria. Freud também apontava que o conteúdo simbólico de um texto não se explica pela análise física de suas páginas.
  • Superinteligência: alertas de especialistas (como Geoffrey Hinton, “pai das redes neurais”) sobre o risco de criarmos uma espécie mais inteligente que nós, capaz de nos dominar.
  • Tecnologia como fármaco: retomando Platão e Flusser, discutiu-se a tecnologia como remédio e veneno ao mesmo tempo, dependendo da dosagem e do uso.

4. Arte, estilo e originalidade

  • Reprodução de estilos: a IA já consegue imitar estilos (literários, visuais, musicais), o que levanta debates sobre direito autoral: obra é protegida, estilo não.
  • Exemplos:
    • João Gilberto, que transformava músicas de outros autores em “seu estilo”.
    • Copiadores de mestres renascentistas na pintura.
  • Conceitos-chave:
    • Pastiche (imitação séria de estilo).
    • Colagem (recombinação de fragmentos).
    • Paródia (imitação irônica).
  • Bakhtin e Foucault: destacaram que somos “falados” mais do que falamos – a originalidade é sempre relativa a vozes e discursos anteriores. Dica Maria Amaral.
  • Clichês e arquétipos: McLuhan analisou como estruturas narrativas viram arquétipos inevitáveis (ex.: “No meio do caminho tinha uma pedra” → Drummond).

5. Corpo e experiência humana

  • Questão pedagógica: Ana Mello alertou que jovens podem recorrer à IA para simular experiências corporais (ex.: perguntar como é um abraço), sem vivê-las diretamente.
  • Risco: formar “humanos diferentes”, com menos experiências sensoriais e afetivas.
  • Complemento filosófico: aproxima-se das ideias sobre o corpo como fundamento da percepção e inteligência.

6. Demonstração prática – coescrita e imagens

  • Ferramenta “Lousa” do GPT:
    • Editar, expandir, resumir e ajustar complexidade de trechos.
    • Permite escrever e revisar dentro da própria interface, sem exportar para editores externos.
    • IA sugere cortes, desenvolvimentos ou ajustes em tempo real.
    • Veja mais informações no link.
  • Romance coletivo: primeira cena elaborada com a turma, demonstrando como manipular estilo e nível de leitura.
  • Geração de imagens:
    • Criação de ilustrações para o romance.
    • Discussão sobre repertório humano para avaliar qualidade estética.
    • Rápida evolução técnica (problema de desenhar mãos já resolvido em grande parte).
    • Sugestão de usar bancos pessoais de imagens como referência para a IA.
  • Comparação entre modelos:
    • ChatGPT: mais avançado em texto.
    • Gemini: mais multimodal (imagem e vídeo), já competindo com Photoshop em alguns casos.
  • Leitura de imagens: IA já é capaz de interpretar fotos enviadas pelo usuário, descrevendo elementos – recurso útil em coescrita.

7. Encerramento

  • Andre destacou que a IA é uma realidade irreversível.
  • O desafio é conviver, adaptar-se e usar o discernimento para aproveitar suas potencialidades criativas e críticas, sem ignorar seus limites e riscos.
  • Anúncio do último encontro no sábado seguinte, com atualização dos materiais no site.

📚 Síntese final

Este encontro mostrou como a IA atravessa múltiplas dimensões:

  • Literatura: autoria, estilo, originalidade.
  • Sociedade: mercado de trabalho, renda universal, vigilância.
  • Filosofia: corpo e mente, finitude, materialidade da consciência.
  • Prática: ferramentas de coescrita, geração e interpretação de imagens.


📚 Sugestão de leitura para a próxima aula: Yuk Hui e Luciano Floridi

Na nossa próxima conversa, vamos mergulhar em duas abordagens filosóficas fundamentais para pensar a relação entre tecnologia, cultura e inteligência artificial: Yuk Hui e Luciano Floridi.


Yuk Hui – Cosmotécnica, Tecnodiversidade, Escatologia e Recursividade

O filósofo chinês Yuk Hui propõe que não existe uma tecnologia universal. Toda tecnologia é uma cosmotécnica, isto é, uma articulação entre cosmo e técnica: cada cultura produz suas próprias técnicas enraizadas em visões de mundo, valores morais e ontologias.

Para Hui, pensar a tecnologia exige romper com o modelo ocidental e linear de progresso e abrir-se à tecnodiversidade – múltiplas formas de vida técnica.

Além disso, Hui nos convida a pensar:

  • A recursividade como estrutura central da realidade técnica contemporânea: sistemas técnicos e sociais formam circuitos que se auto-transformam, como algoritmos que aprendem com seus próprios outputs.
  • A escatologia das máquinas, ou seja, as narrativas de fim dos tempos que acompanham o avanço da IA (como a singularidade ou a substituição do humano), herdam da filosofia da história moderna (de Hegel a Löwith) uma visão teológica secularizada, que devemos problematizar.

📖 Textos sugeridos:

  • ChatGPT, ou a escatologia das máquinas (2023)

Luciano Floridi – Filosofia da Informação, Infosfera e Ética da IA

O filósofo italiano Luciano Floridi desenvolve a chamada filosofia da informação. Para ele, vivemos na infosfera – um ambiente híbrido entre real e digital, onde a informação estrutura nossas relações, decisões e valores.

Em The Ethics of Artificial Intelligence (2023), Floridi aponta três grandes eixos para pensar a IA:

  1. Princípios éticos – justiça, beneficência, não-maleficência, autonomia e dignidade.
  2. Desafios – desde viés algorítmico e falta de transparência até o risco de “apagamento do humano” em processos decisórios.
  3. Oportunidades – IA como aliada em saúde, educação, meio ambiente e governança, desde que orientada por valores éticos claros.

Floridi insiste que a IA não deve ser vista apenas como ferramenta, mas como parte da infosfera: um novo ecossistema no qual humanos e sistemas artificiais interagem, transformando profundamente a identidade, a agência e a responsabilidade.

📖 Textos sugeridos:

  • A inteligência artificial não precisa de inteligência: o pensamento de Luciano Floridi (link)

🔎 Pontos de atenção para a leitura

  1. Como cada autor entende o papel da tecnologia na vida humana?
  2. Que relação há entre técnica e cultura para Hui, e entre informação e ética para Floridi?
  3. Em que sentido a escrita com IA pode ser pensada como um processo recursivo?
  4. As ideias de “fim do humano”, “autonomia das máquinas” ou “superação da natureza” são narrativas escatológicas?
  5. Será que a IA poderia expressar cosmotécnicas diferentes, ou está presa a uma só visão de mundo?
  6. A ética da IA proposta por Floridi responde adequadamente às questões levantadas por Hui?

👉 Leiam os textos e tragam reflexões, dúvidas ou exemplos para discutirmos em sala.


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