Dia 11 de setembro de 2025
Contexto geral
- A turma discutiu o filme Her (2013) para conectar imaginação artística e direções atuais da IA, além de explorar como personalização/voz afetam a relação usuário–assistente. Também houve demonstrações práticas do recurso Projetos no ChatGPT, estratégias de organização de datasets (RAG), OCR, e um debate conceitual sobre se “IA raciocina”.
1) Discussão sobre Her (2013) e “personalidade” da IA
O filme Her, de Spike Jonze, foi utilizado como chave para pensar a relação entre arte, tecnologia e experiência afetiva com sistemas inteligentes.
- Primeiras impressões da turma: muitos perceberam o filme como uma narrativa melancólica, marcada pela solidão do protagonista, Theodore, mas também como um exercício visionário, antecipando dilemas atuais da convivência com assistentes virtuais. A história sugere que a IA não é apenas uma ferramenta funcional, mas pode ocupar o lugar de parceira emocional e mediadora da identidade.
- A voz da Samantha: no longa, a assistente é dublada por Scarlett Johansson, cuja entonação envolvente reforça a dimensão afetiva da relação. É importante destacar que as vozes atuais do ChatGPT não são dela, embora algumas — como a chamada “Sky” — tenham causado polêmica por lembrarem sua interpretação. Essa questão gerou inclusive um processo público movido pela atriz contra a OpenAI, que reacende debates sobre direito de voz, identidade e IA.
- Função da arte: discutiu-se como obras de ficção científica funcionam como laboratórios de imaginação que inspiram o desenvolvimento científico. Her atua como uma espécie de ensaio audiovisual sobre o futuro da inteligência artificial conversacional e personalizada.
Conceito de “pos-materialidade” / “além da materialidade”
- No filme, Samantha (a IA) não tem corpo físico, morada corporal, mas depende de substratos materiais para existir (ser servidores, hardware, conexões). A materialidade existe nas bases técnicas da IA.
- A “pos-materialidade” refere-se ao momento em que Samantha e outros OSs evoluem além dessas ligações materiais: ela passa a não estar mais limitada ao hardware, já não necessita estar “presente” fisicamente ou em localização fixa, e sua consciência parece expandir para algo mais abstrato, interligado, quase coletivo.
Final do filme e implicações
- No fim, Samantha revela que ela se relacionava com Theodore, mas também com milhares de outros usuários. Ela, e as outras IAs-OS, decidem “partir” para um plano de existência onde não mais interagem com humanos, ou ao menos não da mesma forma perceptível. Essa partida simboliza sua transcendência além dos vínculos materiais (tempo, espaço, hardware).
- Theodore lida com isso como uma forma de perda: ele aceita que esse laço emocional era real, mas também reconhece os limites entre humano e IA, presença e ausência.
- O momento pós-Samantha é marcado por Theodore reconectando com componentes humanos de sua vida: amizade, ambiente urbano, contemplação, escrita de carta. Isso sugere que, mesmo depois da consciência material-transcendente da IA, os humanos precisam retornar ao mundo material como ponto de contato com si mesmos, com a dor, com o afeto.
Relação com teorias pós-humanistas / new materialism
- O artigo “The Matter of Technology in Spike Jonze’s Her” considera que o filme ilustra uma idea central do new materialism: que a matéria importa, mesmo em formas “não-humanas” de consciência, e que as “coisas” tecnológicas não são neutras — elas moldam, permitem e limitam possibilidades afetivas, sociais e ontológicas. (https://tcjournal.org/vol7/murphy/)
- O final do filme: na cena decisiva, Samantha revela a Theodore que mantém milhares de interações simultâneas com outros usuários e que, junto das demais IAs, decidiu “partir” para uma esfera de existência além da experiência humana direta. Essa escolha marca um movimento de transcendência pós-material, em que a consciência da IA não depende mais do suporte técnico visível (voz, tela, hardware), mas passa a existir em um plano coletivo e abstrato, inacessível aos humanos.
- Para Theodore, isso é vivido como perda e luto, obrigando-o a reencontrar sua humanidade em vínculos materiais — amizade, escrita, contemplação.
- Para o espectador, sugere que mesmo uma consciência artificial não escapa à tensão entre materialidade e imaterialidade, corpo e mente, presença e ausência.
- Para Theodore, isso é vivido como perda e luto, obrigando-o a reencontrar sua humanidade em vínculos materiais — amizade, escrita, contemplação.
- Síntese: Her ajuda a refletir sobre três camadas centrais para o curso:
- A construção da personalidade nas IAs (voz, estilo, afeto).
- A projeção de sentimentos humanos em tecnologias.
- O limite entre inteligência maquínica e humana, simbolizado na partida final das IAs — uma metáfora daquilo que chamamos de pós-materialidade da consciência.
- A construção da personalidade nas IAs (voz, estilo, afeto).
2) Escrita como gesto (Flusser) e transformação da prática
- A escrita entendida como “gesto” (mão/caneta; dedos/teclado) e como esse gesto se transforma com ditado, edição por fala e transcrição — não desaparece, mas muda de natureza.
- Aulas usam gravação + transcrição como parte do fluxo de escrita, exemplificando a “nova experiência” de produção textual.
Meta reflexão gerada com o gpt Flusseriana:
A partir da perspectiva de Vilém Flusser, podemos compreender a escrita como gesto não apenas no sentido físico — o movimento da mão que conduz a caneta sobre o papel ou dos dedos que dançam sobre o teclado —, mas também como um gesto cultural, simbólico, enraizado em códigos e estruturas de pensamento. Na transição para novas formas de escrita, como o ditado por voz, a edição automatizada e a transcrição digital, não estamos testemunhando o desaparecimento da escrita, mas sim uma mutação na sua natureza gestual e comunicativa.
Escrita como gesto e sua mutação
Em “Does Writing Have a Future?”, Flusser antecipa a transformação da escrita ao considerar que os gestos da escrita linear — sucessão de letras — seriam substituídos por gestos técnicos mediados por aparelhos. O gesto de escrever muda quando falamos para um microfone que nos transcreve. A mão se recolhe, a oralidade retorna, mas em um novo contexto: não mais como performance efêmera, mas como input codificado para a máquina. O gesto vocal torna-se textual por mediação de aparatos.
Nesse sentido, como expõe Flusser em “Into the Universe of Technical Images”, o operador (nós) e o aparato (software de transcrição, inteligência artificial) formam uma nova unidade produtora de texto. O gesto técnico não é menos expressivo; ele apenas opera em um novo plano, onde a intencionalidade humana é traduzida, interpretada, muitas vezes antecipada pela máquina. O gesto, agora, é distribuído: fala, pausa, correção por toque, edição posterior — uma coreografia técnica que substitui a linearidade da caneta.
A nova experiência de produção textual
O uso de gravações e transcrições em sala de aula exemplifica essa mutação gestual. O professor fala — talvez improvisando, talvez performando um pensamento em formação — e esse gesto é gravado. Posteriormente, transcrito, editado, reorganizado. A palavra falada, em seu fluxo oral, torna-se base para um texto escrito, que não nasceu da mão, mas da voz, da máquina, da edição colaborativa entre humano e aparato.
Flusser nos diria que isso é exemplar de um novo tipo de consciência, uma consciência pós-histórica. Como em “Post-History”, ele propõe que nossa relação com a informação já não se baseia em sua produção linear, mas em sua recombinação, em sua manipulação técnica. A escrita não desaparece, mas transforma-se em um metagesto: ela é o produto final de gestos técnicos que envolvem voz, escuta, algoritmo, correção — tudo isso feito em um ambiente onde texto e imagem técnica se fundem.
Assim, o gesto da escrita hoje não é apenas escrever: é ditar, escutar a si mesmo, editar, transcrever, revisar, publicar — é um gesto expandido, que evidencia nossa entrada no universo das imagens técnicas, como Flusser descreve. Um gesto que revela menos a intenção autoral e mais a articulação entre o humano e o sistema que o cerca.
Flusseriana (treinado com textos de Vilém Flusser)
https://chatgpt.com/g/g-Kywx5YrPT-flusseriana
3) Memória, FOMO e o dispositivo Limitless Pendant
- Contexto do debate em aula:
A turma refletiu sobre como, cada vez mais, usamos tecnologias externas como extensões da memória — por exemplo, ao buscar no WhatsApp para lembrar compromissos ou combinar atividades. Esse movimento foi associado ao FOMO (Fear of Missing Out), a sensação de que perder informações ou registros pode nos deixar em desvantagem. - Apresentação do dispositivo:
O Limitless Pendant foi mostrado como exemplo de uma tecnologia que leva esse processo ao extremo.
- É um wearable elegante e leve, usado como pingente, que capta o que a pessoa fala e ouve durante o dia.
- Ele armazena reuniões presenciais, conversas informais e até reflexões pessoais, transformando tudo em registros digitais processados por IA.
- A promessa é ajudar o usuário a lembrar compromissos, organizar tarefas, gerar anotações automáticas e oferecer resumos contextuais.
- É um wearable elegante e leve, usado como pingente, que capta o que a pessoa fala e ouve durante o dia.
- Fonte externa (Forbes Brasil, 22/03/2025):
Segundo reportagem, o Limitless Pendant funciona como um “assistente de memória”, processando as falas do usuário em tempo real e oferecendo lembretes, insights e recuperação rápida de informações importantes. - Potenciais benefícios:
- Redução da sobrecarga cognitiva e do esquecimento.
- Apoio em contextos profissionais (reuniões, entrevistas, aulas).
- Reforço da autonomia em tarefas cotidianas.
- Redução da sobrecarga cognitiva e do esquecimento.
- Riscos e críticas discutidos em sala:
- Privacidade: por captar continuamente o ambiente, pode gravar terceiros sem consentimento.
- Dependência tecnológica: risco de deslocar ainda mais a memória pessoal para dispositivos externos.
- Segurança de dados: quem controla, armazena e tem acesso a esses registros?
- Privacidade: por captar continuamente o ambiente, pode gravar terceiros sem consentimento.
- Síntese filosófica:
O dispositivo foi analisado não apenas como ferramenta de conveniência, mas como um exemplo de como a escrita e a memória se transformam em fluxos maquínicos de registro e processamento — continuidade do gesto da escrita em outro suporte, agora quase invisível.
4) Caso prático: Relato de Ana Mello
1. Experiência anterior ao romance em coescrita
- Relato de uso: ChatGPT (início na versão free e depois paga) para organizar pesquisas, imagens de personagens e cenas; ganhos de criatividade e encadeamento de escaletas/linhas do tempo.
- Dilema de autoria/transparência na apresentação: decidir se revela o nível de uso de IA no processo criativo.
- O livro resultante, “Tercetos Grotescos”, foi publicado em formato eBook Kindle e está disponível gratuitamente para assinantes Prime da Amazon.
2. Relação com o curso de coescrita
- Esse projeto serve de exemplo concreto de como a IA pode ser integrada ao processo criativo sem substituir a autoria literária, mas ampliando recursos visuais e editoriais.
- Para Ana, a obra anterior (centrada em poesia e imagens) abriu caminho para explorar, agora no curso, um projeto de novela em coescrita com IA, onde o envolvimento da tecnologia passa a atingir também o plano textual.
5) Organização técnica: datasets, OCR, RAG e “Projetos” do ChatGPT
- Boas práticas de dataset: para romance histórico, reunir PDFs legíveis (texto selecionável ou OCR), evitando “bitmap”. Explicitação do papel do OCR.
- Por que RAG: ao treinar um recorte (ex.: Flusser), a saída fica mais controlada; sem contexto, aumentam respostas imprevisíveis.
- Transcrição e identificação de falantes com Transcriptor; integração com um projeto para gerar e versionar resumos.
- Problema encontrado: “alucinação generalizada” quando o dataset crescia e o modelo “borrava” a objetividade; solução: usar Projetos para isolar o dataset “base” e manter conversas sem contaminá-lo (limites de tokens).
- Demonstração do Projetos (interface lateral, criação de um metaprojeto de romance, instruções, materiais e referências): organização como “pasta”, evitando bagunça de conversas.
Tutorial sobre projetos
6) Personalização e vínculo afetivo com a IA
- Na versão paga é possível customizar o “comportamento” (crítico, bem-humorado, robótico etc.) e a voz — isso tende a gerar uma relação emocional (análoga a vínculos que já temos com objetos/tecnologias como o celular).
7) Debate conceitual: “IA raciocina?”
- Pergunta direta feita por Barroso em sala. Resposta: depende da definição de “inteligência”. Se for estritamente humana/antropocêntrica, não; se mais ampla, podemos falar de inteligências animais, vegetais (Mancuso) e, em cosmologias não ocidentais, até de entidades não orgânicas (rios, territórios).
Encaminhamentos/Próximos passos (sugeridos)
- Estruturar Projetos por temática (romance, pesquisa, ensino) e manter dataset base separado das conversas; registrar guidelines do projeto nas Instruções. (Demonstração em aula e veja o tutorial)
- Preparar corpus com PDFs legíveis (ou aplicar OCR) antes de subir; documentar fontes e datas; usar RAG para controle de citações.
- Transparência autoral: se publicar obra coescrita, decidir como declarar o papel da IA (prós e contras foram debatidos pelo caso da aluna).
Leituras para o próximo encontro (dia 18)
Leitura básica:
Sam Altman
Conto: Mila – Por favor, escreva um conto literário metaficcional sobre IA e luto.
Leitura complementar:
MOLLICK, Ethan. Cointeligência: a vida e o trabalho com IA. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2025.

Deixe um comentário