Rumo a pós-escrita


Primeiro Encontro – dia 04/09/25

O primeiro encontro do curso de coescrita com inteligência artificial foi marcado pela diversidade dos participantes e pela riqueza das trocas iniciais. Estavam presentes escritores, professores, jornalistas, pesquisadores de diferentes áreas, além de profissionais ligados às artes, às ciências sociais e à saúde. Essa multiplicidade de olhares já mostrou como o tema da coescrita com IA transcende o campo literário e se conecta a questões éticas, pedagógicas, artísticas e culturais. Muitos participantes relataram suas experiências pessoais: alguns já haviam utilizado a IA em projetos criativos, como na escrita de livros e poesias, enquanto outros demonstraram curiosidade ou até certo receio em relação ao uso dessas ferramentas.

Os cursistas vieram de áreas variadas, o que enriqueceu as perspectivas:

  • Luiz (Neurociências) – curiosidade em explorar IA.
  • Ana Mello (escritora) – já publicou 10 livros; primeira narrativa longa com auxílio de IA.
  • Ana Paula (professora de Letras) – busca entender como orientar alunos que usam ou não IA; vê a ferramenta como apoio, mas também fonte de erros.
  • Márcia (arte-educadora, doutora em cultura e redes) – interessada nos limites éticos.
  • Viviane (assistente social, mestrado em gestão social) – preocupada com ética e oportunidades.
  • Cláudio (poeta) – experimentou coescrever haikais com IA (no estilo renga japonês).
  • Manuel (filósofo, crítico de arte) – vê IA como ferramenta de apoio criativo, comparável a dicionários e recursos digitais.
  • Noemi (escritora) – publicou livro físico; sente dificuldade em guiar a IA para o que deseja, mas reconhece potencial como ferramenta de pesquisa.
  • Simone (doutoranda em meio ambiente) – ainda resistente à IA, mas aberta a aprender.
  • Mário (jornalista) – preocupado com autoria, pirataria e direitos autorais.
  • Barroso (professor de Direito, escritor) – pretende escrever autobiografia com ajuda de IA.

👉 Essa diversidade mostrou que o tema transcende a literatura, afetando várias áreas (educação, saúde, direito, jornalismo, filosofia, etc.).

Na sequência, o professor André Stangl apresentou sua trajetória, que começa na Filosofia, passa pela Comunicação e pela Cultura Digital e chega às pesquisas atuais sobre atenção, cibercultura e saúde digital. Ele relatou como, inicialmente, teve resistência em usar IA nos seus próprios textos, mas aos poucos foi incorporando a tecnologia ao processo criativo, até o ponto em que a distinção entre o que era “seu” e o que vinha da máquina se tornou quase impossível de definir. Essa experiência prática e reflexiva foi a base para a criação do curso.

O debate teórico se apoiou em algumas referências fundamentais. Isaac Asimov, escritor e cientista, foi lembrado como um dos primeiros a propor um olhar ético e regulatório sobre a relação entre humanos e máquinas, ao criar as famosas leis da robótica. Vilém Flusser, por sua vez, antecipou já nos anos 1980 a ideia de uma crise da escrita, sugerindo que estaríamos entrando em uma “pós-história” marcada pela oralidade, pelas imagens e pelos dados digitais, em contraste com a linearidade da escrita tradicional. Michel Serres foi evocado com a metáfora da Polegarzinha, símbolo das novas gerações digitais e das mutações culturais que o uso intenso de tecnologias provoca em nossa forma de comunicar. Já Luciano Floridi contribui com a discussão ética ao propor a distinção entre agência e inteligência: a IA age e influencia, mas não compreende como um ser humano, o que levanta desafios sobre autoria, responsabilidade e originalidade.

Essas reflexões ajudaram a enquadrar os grandes temas que atravessam a coescrita: a redefinição do conceito de autoria, a tensão entre facilidade tecnológica e profundidade reflexiva, os impactos no campo educacional e acadêmico, a centralidade das imagens e da oralidade na cultura digital contemporânea e a necessidade de discutir os limites éticos do uso da inteligência artificial, especialmente diante da concentração de poder nas big techs.

O encontro também contou com demonstrações práticas do uso do ChatGPT, destacando as diferenças entre a versão gratuita e a paga, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de criar contextos personalizados e até modelos customizados baseados em autores específicos. Essas experiências mostraram como a qualidade das interações depende não apenas dos comandos (“prompts”), mas da construção de um contexto mais amplo, o que o professor chamou de “engenharia de contexto”.

Ao final, reforçou-se a ideia de que o curso não é apenas um espaço técnico de aprendizado, mas também um espaço coletivo de reflexão e experimentação. Foram indicadas leituras complementares, como A Escrita, de Vilém Flusser; A Polegarzinha, de Michel Serres; e A Ética da Inteligência Artificial, de Luciano Floridi. Os participantes também foram convidados a integrar o grupo de WhatsApp do curso e a acessar o site de apoio, que reúne materiais e referências.

Mais do que uma introdução, o primeiro encontro mostrou-se como uma verdadeira abertura de horizontes, onde prática e teoria caminham juntas. Entre relatos pessoais, referências filosóficas e exercícios práticos, os participantes começaram a se situar diante do grande desafio da coescrita com IA: aprender a pensar criticamente sobre as transformações que ela traz, reconhecendo tanto seus riscos quanto suas potencialidades.


Referências Teóricas

1. Isaac Asimov (1920–1992)
  • Escritor de ficção científica e cientista, um dos autores mais prolíficos do século XX.
  • Contribuições centrais:
    • Criou o termo “robótica”.
    • Formulou as famosas Três Leis da Robótica, que influenciaram debates éticos sobre máquinas autônomas.
    • Produziu centenas de livros de ficção e divulgação científica.
  • Relevância para o curso:
    • Diferente de Hollywood (que costuma pintar robôs como ameaça), Asimov via a tecnologia como ferramenta positiva, desde que bem regulada.
    • Inspira a pensar a IA não como inimiga, mas como parceira criativa na coescrita.
    • Introduz a ideia de que as regras e a ética vêm antes dos problemas – algo essencial no debate atual sobre IA generativa.

2. Vilém Flusser (1920–1991) – A Escrita: há futuro para a escrita?
  • Filósofo tcheco-brasileiro, exilado no Brasil após a Segunda Guerra Mundial.
  • Atuou fora da academia tradicional, mas se tornou referência internacional em filosofia da técnica e comunicação.
  • Conceito central: Pós-história
    • A história ocidental sempre foi narrada a partir da escrita (documentos, arquivos).
    • Povos sem escrita eram considerados “sem história”.
    • Com as tecnologias digitais, entramos em uma era pós-histórica:
      • A escrita deixa de ser central → cresce a oralidade (áudios, fala com máquinas).
      • Surge a predominância de imagens e dados sobre textos lineares.
  • Crítica à linearidade:
    • A escrita organiza o pensamento em linha (causa → efeito, começo → fim).
    • Isso permite ciência e racionalismo, mas também aprisiona o pensamento.
    • O digital abre espaço para formas não lineares (hiperlinks, remix, interatividade).
  • Relevância para a coescrita:
    • IA representa o ápice da desmaterialização da escrita.
    • O texto deixa de ser apenas humano, abrindo espaço para criação híbrida (humano + máquina).
    • Flusser antecipa a crise da autoria e a emergência de novas formas de criação coletiva.

3. Michel Serres (1930–2019) – A Polegarzinha
  • Filósofo francês, conhecido por metáforas vivas e diálogo com ciência e tecnologia.
  • A Polegarzinha (título em francês: Petite Poucette) é um livro escrito para sua neta, representando as novas gerações digitais.
  • Metáfora da mutação:
    • Nossos ancestrais andavam de quatro → boca ocupada → não falavam.
    • Quando passaram a andar de pé → boca ficou livre → surgiu a fala.
    • Agora, com smartphones e redes digitais → outra mutação cognitiva está em curso.
  • Relevância para a coescrita:
    • A IA simboliza essa nova mutação cultural.
    • Assim como a fala transformou a humanidade, a coescrita com IA pode redefinir a forma como pensamos e criamos.
    • Convida a olhar a transformação não como decadência, mas como nova etapa evolutiva da linguagem.

4. Luciano Floridi (1954–) – A Ética da Inteligência Artificial
  • Filósofo italiano, referência em ética da informação e filosofia digital.
  • Defende que vivemos numa infosfera (um ecossistema informacional), onde humanos e máquinas interagem.
  • Conceito central: agência vs. inteligência
    • A IA age (ex.: carros autônomos, drones, chatbots), mas não entende como humanos (não possui consciência semântica).
    • Isso gera um “divórcio” entre agência e inteligência.
  • Relevância para a coescrita:
    • Na prática criativa, a IA atua como agente, influenciando o processo, mas não possui intenção ou subjetividade.
    • O desafio ético é como reconhecer essa agência sem confundir com autoria plena.
    • Implica rever categorias tradicionais de autoria, responsabilidade e originalidade.


A Parte Prática do Encontro

Depois da rodada inicial de apresentações e das primeiras reflexões teóricas, o encontro avançou para uma exploração prática do uso da inteligência artificial na escrita. O professor André Stangl utilizou o ChatGPT para demonstrar como a interação pode variar dependendo do tipo de acesso: na versão gratuita, as respostas são mais genéricas e limitadas; na versão paga, é possível trabalhar com memória, criar projetos e desenvolver GPTs customizados voltados a temas ou autores específicos.

Um dos exemplos apresentados foi a criação de haikais com auxílio da IA. Primeiro, André pediu que o sistema pesquisasse o que é um haikai, mostrando que a ferramenta agora oferece não apenas respostas, mas também as fontes consultadas. Em seguida, solicitou que a IA produzisse pequenos poemas sobre o tema de uma gota de água. O resultado foi avaliado coletivamente, destacando que a qualidade melhora quando o usuário oferece mais contexto à máquina. Esse exercício serviu para introduzir a noção de “engenharia de contexto”, uma etapa mais avançada do que os simples “prompts”: trata-se de estruturar a interação de forma cuidadosa, calibrando informações, referências e estilo para guiar a resposta da IA.

Outro ponto prático foi a apresentação da chamada “loja de GPTs customizados”, onde qualquer usuário da versão paga pode criar ou acessar assistentes especializados. André mostrou o exemplo de um GPT Flusseriana, treinado com a obra de Vilém Flusser. Assim, ao perguntar “o que é pós-história?”, a resposta não vinha de uma base geral e difusa, mas diretamente da obra do filósofo. A demonstração evidenciou como esse recurso pode ser aplicado em projetos de estudo, escrita e até pesquisa acadêmica. Foram sugeridos ainda experimentos semelhantes com outros autores, como Paulo Leminski, para a criação de poemas em estilos específicos.

Por fim, André mostrou como a IA pode ser utilizada como parceira de organização pedagógica. Ele explicou que, após cada aula, costuma transcrever as gravações e alimenta seu GPT customizado com esse material. A partir daí, a ferramenta ajuda a identificar temas recorrentes, pontos esquecidos e sugestões para aprofundar nas aulas seguintes. Esse uso foi descrito como uma espécie de “parceria didática”, onde a IA atua quase como um assistente de planejamento.

Essas práticas evidenciaram tanto o potencial criativo da IA – no campo literário e artístico – quanto seu papel de apoio organizacional em processos de pesquisa e ensino. Mais do que respostas prontas, o exercício mostrou que a qualidade da coescrita depende da relação que o humano estabelece com a máquina: quanto mais contexto, clareza e intencionalidade, mais rica será a interação.



Etapas da conversa como criação de contexto

Etapa 1 – Pesquisa conceitual (criar base teórica)

Você pediu para pesquisar sobre o estilo de poesia haikai.
→ Aqui construímos o contexto cultural e histórico: origem no Japão, forma tradicional (5-7-5, kigo, kireji), relação com a natureza e adaptações brasileiras (Leminski, Teruko Oda etc.).
👉 Essa etapa cria um fundamento de referência para as próximas criações.


Etapa 2 – Pesquisa científica (observar fenômeno)

Depois você pediu para pesquisar como se forma uma gota de água.
→ Essa explicação forneceu o cenário físico: tensão superficial, gravidade, forma da gota, fatores que influenciam.
👉 Aqui, o contexto passa a conectar poesia e ciência, preparando o terreno para metáforas.


Etapa 3 – Criação poética (primeiros haicais)

Você pediu então para fazer um haicai sobre a gota.
→ O haicai condensa a pesquisa anterior em imagem poética: a gota como espelho do mundo, ou como movimento e desaparecimento.
👉 Aqui nasce a tradução estética do conhecimento em poesia.


Etapa 4 – Expansão narrativa (sequência da viagem da gota)

Na sequência, você pediu uma série de haicais sobre a viagem da gota: céu → folha → rio → mar.
→ Agora o contexto se transforma em narrativa poética contínua, quase uma “epopeia minimalista” da gota.
👉 Esse movimento mostra como a pesquisa inicial serviu para criar um fio condutor de sentido.


🔹 2. Os prompts que guiaram o processo
  1. “pesquisar sobre o estilo de poesia hiakai”
    → Pesquisa conceitual sobre haikai/haiku.
  2. “pesquisar como se forma uma gota da agua”
    → Explicação física do fenômeno da gota.
  3. “a gora faça uma haikai sobre uma gota”
    → Criação poética inspirada no contexto.
  4. “faça outra”
    → Nova variação do haicai.
  5. “sim, por favor” (sobre a viagem da gota)
    → Expansão em uma sequência de haicais que narram etapas.

🔹 3. Síntese

O processo inteiro mostra como a pesquisa funciona como criação de contexto:

  • Primeiro, abre-se um campo de referências (haikai).
  • Depois, integra-se um fenômeno observável (gota de água).
  • A seguir, esse contexto gera sínteses poéticas (haicais).
  • Finalmente, amplia-se em uma narrativa (a viagem da gota).

É como se a conversa fosse um caminho em espiral, onde cada pesquisa alimenta a criação, e cada criação pede um aprofundamento de pesquisa.


primeiro haikai

Na ponta da folha,
brilha o mundo inteiro
numa só gota.

segundo haikai

Cai da torneira,
gota despenca e some,
círculos no chão.

(Quer que eu crie uma sequência de haicais só sobre a viagem da gota — do céu (chuva), passando por uma folha, até o rio e o mar?) SIM

Ótimo! 🌊 Vou compor uma pequena sequência de haicais narrando a viagem da gota:


1. Céu

Nuvem pesada,
gota se solta do céu —
primeiro salto.


2. Folha

Na folha verde,
gota brilha e desliza,
sol faz diamante.


3. Rio

Corrente forte,
a gota dança e gira,
corpo do rio.


4. Mar

No mar imenso,
gota se perde e encontra,
tudo é retorno.


Resumo coescrito com ia

Para nosso próximo encontro, assistam ao filme Her (2013) — de preferência completo, mas quem não conseguir pode ver os trechos disponibilizados no site do curso.

Trechos do Filme Her (link)

Além disso, seguem as leituras:

Leitura para o próximo encontro
Nöth, Winfried. Flusser e a escrita: A herança de Toronto e os paradoxos da escrita após o fim da escrita. Flusser Studies 33, mai 2022. (pdf).

Leitura básica:

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